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“O mundo é um ovo”

Essa expressão é muito usada na minha Teresina, cidade do coração, quando se quer afirmar que determinado lugar é pequeno, onde todas as pessoas se conhecem.

Alguém poderia pensar que ousadia a minha afirmar que “o mundo é um ovo”. Tudo bem! Aqui trata-se mesmo de um reforço de linguagem. Então deveria eu corrigir para dizer que “O caminho é um ovo”. 😉 Explico.

Estou eu descendo o Monte do Perdão quando avisto uma família composta pelo pai e dois filhos (um homem e uma mulher). Nos aproximamos e eu, que estava com a bandana do Brasil, fui por eles interpelada, dizendo que também eram brasileiros. Nos apresentamos dizendo nossos nomes, de que parte do Brasil éramos e nossas profissões.

No alto do Monte do Perdão

No alto do Monte do Perdão

Para a minha surpresa, o rapaz, chamado Daniel, disse que era médico e morava em Ribeirão Preto. Sem demora, afirmei a ele que minha irmã morava também naquela cidade, porque fazia residência em pediatria. Então ele disse que também era médico, ortopedista pediátrico, inclusive dando aula para médicos residentes. Ops! Começamos a ligar os pontos.

Para a surpresa de todos, ao final desse primeiro contato, descobrimos que o Daniel havia sido professor da minha irmã dois meses antes. Começamos a gargalhar pela coincidência de em meio àquelas circunstâncias nada comuns, em pleno solo espanhol, encontrarmos uma conexão que nos aproximou.

“O Caminho é ou não é um ovo?” 😉

As amizades no Caminho

“O Caminho é feito por pessoas”. Escrevi isso em algum dos primeiros posts nas redes sociais. Diria eu que talvez o Caminho não impactasse tão fortemente as expectativas de autoconhecimento e amadurecimento reveladas durante o seu percurso não fossem os peregrinos.

É uma troca inexplicável!

Pessoas vêm e vão. Algumas ficam mais tempo. Todas com uma história a compartilhar, seja na mesa de um restaurante ou nos quilômetros que separam uma cidade da outra. Não importa.

Daí porque eu afirmar com uma grande convicção que só fica sozinho no Caminho quem assim deseja. Eu mesma, apesar de ter ido sozinha, só permaneci sozinha em longos trechos, porque assim desejei. Queria aproveitar cada minuto para ouvir a voz dos meus pensamentos, para meditar ao som dos pássaros, da cachoeira, ou até mesmo, da playlist do celular. Tinha mais dificuldade em me encontrar comigo mesma com uma companhia do lado, pois sentia uma certa “obrigação” de falar.

Apesar disso, tive muitas oportunidades de encontrar pessoas, de diferentes idades, de diversas nacionalidades. Fiz amigos, pessoas com quem pude abrir o coração. Isso, inclusive, no Caminho, não parece uma tarefa muito difícil, pois de uma forma ou de outra, o simples fato de sermos todos peregrinos já nos identifica e sinaliza um pouco da característica pessoal de cada um. Ser peregrino no Caminho de Santiago tem lá suas particularidades. Não é para qualquer um – lembro não raras vezes ter ouvido de pessoas no Brasil: “você está doida. Por que vai fazer um negócio desses? Melhor seria ir para outro lugar, aproveitar a praia sentada na barraca bebendo um cerveja gelada…”

O fato é que, apesar dos difíceis momentos que certamente todos enfrentamos no Caminho, outros tantos incontáveis de alegria nos são oportunizados, geralmente, no contato com o outro. Vou citar alguns exemplos.

Criei um vínculo especial com a Jelena (da Croácia), que já comentei aqui no blog. Tivemos uma forte empatia desde o princípio. No entanto, não caminhamos juntas todo o tempo. Geralmente, nos dispersávamos e nos albergues das cidades de destinos nos reencontrávamos. Em uma dessas ocasiões, em Pamplona, ao nos revermos tivemos uma reação tão explícita de carinho e saudade que eu deduzi que aquela mulher se tornaria uma grande amiga, em quem eu poderia confiar. Ela seria minha “anjo da guarda”. <3

Jelena <3

Jelena <3

Outros queridos e com quem tive o prazer de conviver de mais próximo, foram a Andrea e o Renato, ambos brasileiros. Foi com eles que eu aprendi que ir além dos seus limites físicos é sempre possível, se ao seu lado tiver pessoas que te impulsione a isso. Caminhamos os três juntos em um só dia memoráveis 41 (quarenta e um!) quilômetros. <3

Andrea :D

Andrea :D

Ouvi lindas histórias da Chris, dos EUA, que me inspiraram a ser uma pessoa melhor. Foi com ela que dormi e comi em um albergue de proposta natural, vegetariana, isso depois de nos perdermos e caminharmos 6 (seis) quilômetros a mais, dos 30 e tantos que já tínhamos feito. Estávamos na companhia uma da outra. <3

Chris e Renato :D

Chris e Renato :D

Marcante foi ainda a Helle, da Dinamarca, com sua alegria de viver. Helle me ensinou que por vezes precisamos ser flexíveis a fim de alcançar determinados objetivos. Sua marca é a jovialidade. Quando tiver a sua idade, quero ser como você, Helle!

Helle (a de lenço verde) :

Helle (a de lenço verde) :

Puxa! Eu poderia escrever páginas sobre os amigos do Caminho. Foram tantos e tão especiais. Guardo todos nas minhas melhores lembranças e nas anotações do seu Moleskine de capa amarela. <3

Vinte e sete com joelhos de oitenta

Foi essa a conclusão que cheguei no final do segundo dia de caminhada. Sinceramente, achei que esse dia seria tranquilo comparado ao dia anterior. Ledo engano.

O percurso de Roncesvalles a Zubiri revelou-se úmido, lamacento e com muita variação de relevo. Lembro que uma fina garoa dava o tom das minhas passadas. Estava mais atenta e cautelosa para não deslizar e cair em meio às grandes pedras.

A tradicional foto em Roncesvalles.

A tradicional foto em Roncesvalles.

Apesar do aparente cenário desanimador, as tulipas que adornavam as casinhas do século XVIII em Burguete encheram os meus olhos. Pela primeira vez, via tulipas plantadas no solo, como as familiares roseiras dos jardins brasileiros. Elas eram pequenas, grandes, de todas as cores. Me impressionou como a aparente fragilidade de suas pétalas poderiam bem conviver com o aquele solo e aquele clima. Elas resistiam como que de propósito para serem apreciadas pelos peregrinos que lá passavam.

Lindas tulipas.

Lindas tulipas.

Das pequenas tulipas às altíssimas árvores parecia que o contato com a natureza bela promovia o cenário perfeito para a divagação dos pensamentos. Havia momentos que eu só queria que eles se acalmassem. De uma forma ou de outra, meus desejos foram atendidos.

O percurso até chegar em Zubiri era só de descida. Os joelhos que já não estavam essas maravilhas, mostraram a que vieram ou para o que não estavam dispostos, vamos assim dizer. Diminuí o ritmo. Sabe quando você caminha como que escolhendo aonde pisar? Pois bem. Eu fiz isso por quase uma hora.

Os peregrinos que eu tinha ultrapassado, em algum momento, começaram a me alcançar, um por um. Mas não só eles. Também as próprias famílias espanholas que aproveitavam o lazer dominical para praticar atividades ao ar livre.

Foram adultos, crianças e idosos, todos eles a caminhar como se nada estivesse fora do controle, enquanto para mim, tudo, absolutamente tudo, fugia do controle.

O cúmulo foi quando uma senhora com seus 65 ou 70 anos me ultrapassou. Quando vi a cena e realizei que de nada adianta ter 27 anos, se os seus joelhos não respondem, gargalhei por dentro, enquanto as lágrimas queriam extravasar.

Não demorou muito e foi isso mesmo que aconteceu. A cada passada que tentava encontrar firmeza, caia uma lágrima. E assim foi até que um peregrino suíço, cujo nome eu não gravei, parou e perguntou se eu estava bem. A princípio, respondi que sim. Mas é claro que não estava e então ele insistiu na pergunta. Resolvi colocar o sentimento de autossuficiência no bolso e revelei que não estava nada bem, pois meus joelhos doíam muito.

Sem demora, ele sacou do bolso um remédio para dor, desses que dissolvem na boca sem necessidade de água, e ofereceu um dos seus sticks em complemento ao meu, bem como me acompanhou até a chegada a Zubiri.

Marcos do Caminho

Marcos do Caminho

Os atos de solidariedade e gentileza pelo Caminho começaram a dar as caras, para assim continuar até o final da jornada, tornando-se uma das lembranças mais marcantes desta que escreve.

Chá e pomada que ganhei de peregrinos no albergue em Zubiri.

Chá e pomada que ganhei de peregrinos no albergue em Zubiri.