Monthly Archives: September 2016

Para fazer um peregrino feliz…

Com o passar dos dias, fui descobrindo que eu realmente precisava de muito pouco para ficar feliz no Caminho a Santiago.

Carinha de feliz. :)

Carinha de feliz. :)

Eis algumas conclusões a que eu e outros peregrinos amigos chegamos sobre o que de fato nos trazia felicidade, objetivamente falando:

  • Ter roupa limpa e seca para vestir;
  • Chegar no banheiro do albergue e encontrar um chuveiro com forte propulsão de água QUENTE;
  • Encontrar no banheiro do albergue ganchos e cadeira ou banquinho para pendurar e apoiar as roupas e a nécessaire;
  • Em cada cama do albergue encontrar uma tomada e, até mesmo, uma luminária para facilitar o uso das tecnologias e a escrita no diário que todo peregrino, em geral, traz consigo;
  • Wifi com maior alcance possível, de preferência até o quarto.
No albergue em Pamplona

No albergue em Pamplona

Roupas secando no varal

Roupas secando no varal

Luminária e tomadas individuais

Luminária e tomadas individuais

Albergue em Sarria (a 100km de Santiago)

Albergue em Sarria (a 100km de Santiago)

O menu do peregrino

Devo dizer antes mesmo que alguém pergunte: eu não emagreci durante os 31 dias no Caminho de Santiago. Ao contrário, voltei com redondos 66 quilos, dois a mais de quando havia deixado o Brasil.

O ganho de peso, na minha opinião, se deveu ao inchaço ocasionado pela retenção de líquido, já que, infelizmente, não ingeri a quantidade de água que deveria, bem como pelo excesso de carboidrato. Nunca comi tanto açúcar na vida. Era o açúcar dos chocolates e gelatinas, do trigo dos “bocadillos”, das “tapas” e das “magdalenas”, da batata das “tortillas”, do arroz da Paella… Mas não reclamo. Foi a opção que fiz em aproveitar o Caminho sem me preocupar tanto com a dieta alimentar que há meses estava seguindo.

Bocadillo e cerveja ;)

Bocadillo e cerveja ;)

Torta de maçã <3

Torta de maçã <3

 Paella <3 (feita por um espanhol casado com uma brasileira)

Paella

 

Magdalena :p

Magdalena :p

Tortilla francesa (sem batata)

Tortilla francesa (sem batata)

Tapas

Tapas

Antes de mais nada um esclarecimento: o Caminho de Santiago é perfeitamente adaptável para todo e qualquer peregrino, vegetariano, com limitações de ingestão de glúten e lactose, etc. A pessoa só precisará ter um pouquinho de paciência e disposição para eventualmente preparar sua própria comida nas cozinhas dos albergues (a grande maioria deles dispõe para uso livre do peregrino) ou de quando for a um restaurante perguntar por eventuais adaptações dos ingredientes dos pratos.

Basicamente, a minha rotina alimentar era tomar café da manhã, comer algum lanche no almoço e a noite me fartar com o menu do peregrino.

O café da manhã oferecido na maioria das lanchonetes, bares ou restaurantes se resume a “tostadas” (ou torradas) com manteiga e geleia, acompanhadas de café com leite e um copo de suco de laranja.

Um dos meus cafés da manhã (que minha nutri não veja esse post rs)

Um dos meus cafés da manhã (que minha nutri não veja esse post rs)

O lanche a que eu fiz referência se alternava entre um “bocadillo” de queijo e tomates ou atum e uma tortilla (torta de batata e ovo), acompanhado de café com leite (se estivesse mais frio) ou de uma clara – cerveja com suco de limão – (se o sol estivesse a pino).

Bocadillo de atum e café com leite. (Deu água na boca)

Bocadillo de atum e café com leite. (Deu água na boca)

Por fim, o menu do peregrino para o jantar… O menu do peregrino é servido em quase todos os bares e restaurantes. Ele é composto de uma entrada, um prato principal e uma sobremesa, acompanhado de vinho a vontade.

Salve, Baco! \o/ (os cabelos bagunçados dão o charme rs)

Salve, Baco! \o/ (os cabelos bagunçados dão o charme rs)

A entrada em geral variava entre uma salada fria, uma sopa e uma pasta. O prato principal oferecia a opção de carne vermelha, frango ou peixe, com uma considerável porção de batata de acompanhamento. Por fim, a sobremesa compreendia uma porção de salada de fruta, uma fruta, um pote pequeno de iogurte, um flam, a torta de Santiago…

Entrada (geralmente, uma pasta ou salada fria)

Entrada (geralmente, uma pasta ou salada fria)

Principal: peixe ou frango

Principal: peixe ou frango

Flan

Flan

Tais opções ficavam à disposição do cliente que poderia escolher entre as opções aquelas que mais lhe agradava, pagando por tudo isso a quantia que variava entre 8 e 10 euros.

Alguns albergues por hábito também ofereciam o menu do peregrino de uma forma diferente. Por duas vezes, comi menu’s do peregrino vegetarianos, os quais não deixavam a desejar no sabor e fonte de nutrientes.

A entrada do menu vegetariano (e o carinho das cozinheiras desejando-nos um "Buen Camino")

A entrada do menu vegetariano (e o carinho das cozinheiras desejando-nos um “Buen Camino”)

Lasanha de abobrinha e outros vegetais

Lasanha de abobrinha e outros vegetais

A sobremesa: tora de nozes e castanhas

A sobremesa: torta de nozes e castanhas

Outros, por sua vez, ofereciam jantar em troca de donativos. Em uma dessas, no albergue do brasileiro Acácio em Viloria de Rioja, comi lentilha, fazendo-me matar a saudade, ainda que não por completo, do velho e bom feijão nosso de cada dia.

Ao contrário das previsões dos amigos que diziam que eu iria retornar mais magra e “acabada” rs, o Caminho revelou-se uma grande surpresa.

Saúde! ;D

Saúde! ;D

As bolhas

Lembro que a chegada em Estella foi das mais marcantes. Meus pés ardiam no trecho final deste dia, o quinto (de trinta e três) rumo a Santiago. Caminhava “de banda”, na ponta dos pés, valia de tudo para amenizar o ardor.

As primeiras bolhas vieram à tona com força total. Pequenas, médias, grandes. Juro que nunca dei tanto valor aos meus pés como nesse dia.

Chegando no albergue, uns senhores espanhóis, vendo a minha feição de choro, ofereceram ajuda. Seus apelidos eram Paco e Paco. Engraçado, não!? Caminhavam juntos aqueles amigos.

Foram eles que me orientaram a besuntar os pés de vasilina antes de calçar as meias, bem como me ofereceram os primeiros Compeed. Compeed é uma proteção em material plástico mais resistente que o band-aid e que forma mesmo uma segunda pele sobre aquela que já está desgastada. Tinha até tentado achar em farmácias no Brasil, mas não tive êxito.

Colocamos o Compeed no lugar da bolha recém-criada, porém sem antes estourá-la. O detalhe é que devíamos tê-la estourado antes de tudo e desinfecionado. Descobri isso apenas alguns dias mais a frente, quando os meus pés, àquela altura, já estavam encobertos de bolhas (e de Compeed), sem qualquer melhora.

As temidas encobertas por Compeed.

As temidas encobertas por Compeed.

Alguns dias com aqueles objetos plásticos encobrindo os pés me deixaram ainda mais impaciente. Em Azofra, num rompante de dor e desespero, resolvi tirá-los todos, depois de deixar os pés de molho em água quente por alguns minutos.

Não demorou muito e as bolhas do pé esquerdo passaram a drenar pus e este mesmo pé ficar inchado, a ponto de a havaiana não mais servir.

:/

:/

Com a ajuda da Jelena, que há tempo vinha acompanhando o meu sofrimento, fui convencida a parar por um dia, descansar e tratar das bolhas. Saímos juntas a procurar por um hotel, o único da cidade. Na sequência, ela seguiu viagem sozinha.

Repouso no hotel (meu day off “forçado”).

Repouso no hotel (meu day off “forçado”).

Localizei uma farmácia em Azofra e levei tudo de remédio que eu tinha trazido do Brasil, para que alguém, finalmente, me dissesse como eu deveria tratar daquelas bolhas. A farmacêutica me orientou dizendo que eu deveria desinfecciona-las com mertiolate e, em seguida, furá-las com uma agulha para que a água do seu interior saísse, e, por fim, reaplicar o mertiolate. Naquelas bolhas que já estavam infeccionadas, ela me recomendou aplicar pomada antibacteriana e, depois de tudo, cobrir com uma “gaze” adesiva para pele sensível, e só então passar vaselina na parte restante do pé para depois calçar as meias. Ufa!

Um dia de descanso com os pés tratados e em repouso me fizeram bem a ponto de no dia seguinte o recomeço da caminhada ter sido incrivelmente mágico. As bolhas ainda estavam presentes, outras tantas ainda apareceriam, mas o ânimo já era outro. Passei a conviver muito melhor com elas e superar a cada dia mais os meus limites físicos e mentais.

O recomeço

O recomeço