Category Archives: Camino de Santiago

Pegadas no Caminho de Santiago

Logo nos primeiros passos em Saint Jean Pied de Port (França), cidade onde se inicia o Caminho francês, percebi que encontraria muitos detalhes em referência a essa peregrinação milenar. Não a toa, comecei a fotografá-los.

Um que me marcou em particular foi o chão adornado com a marca da famosa concha do Caminho de Santiago pelas cidades francesas e espanholas.

Aqui eu compartilho do meu divertido hobby adotado durante aqueles 31 dias. :)

Reencontro pós-Caminho de Santiago

Hoje gostaria de dar uma pausa nos posts sobre as minhas impressões e estórias vividas no Caminho de Santiago, para relatar um pouco da experiência que vivi há poucos dias, na Dinamarca, com duas amigas que o caminho a Santiago me presenteou.

Eu já mencionei os seus nomes e como nos conhecemos no post sobre “As amizades no Caminho”. Tratam-se da Jelena e da Helle, duas queridas com quem tive empatia de cara.

Aqui é preciso que se diga: não tivemos muitos dias de convivência durante o Caminho, mas a promessa do reencontro e o desejo de realizar sempre falou mais alto. Foi assim, motivadas por esse espírito, que combinamos de finalmente nos reencontrar, desta vez, na Dinamarca. As três juntas. <3

A Jelena viajaria da Croácia e eu, do Brasil. Na verdade, fiz coincidir que estaria no Velho Continente, de férias, para pegar um vôo low cost para Aarhus, cidade vizinha à Malling, onde a Helle mora. Helle e Jelena me recepcionaram no aeroporto e, se eu tivesse lembrado, teria gravado as suas reações quando saí do portão de desembarque. Foi lindo! Nos abraçamos e admiramos, dentre outras coisas, o fato de estarmos trajando roupas “normais” (isto é, não peregrinas). Foi uma explosão de alegria. 

Alegria!

Alegria!

Daí em diante, a cada dia, uma surpresa atrás da outra. A Helle, sua família e vizinhos foram impecáveis na acolhida. Foram 5 dias incrivelmente bem aproveitados, regados à muito vinho, boa comida e companhias maravilhosas.

Nunca esquecerei das conversas sobre o que vivemos no Caminho Francês; nos planos para um futuro Caminho Português; no compartilhar de estórias sobre a Croácia, o Brasil e a Dinamarca (clima, refugiados, política, futebol, etc); dos passeios por Aarhus; do jantar de Natal (!) em que no final ainda ganhei uma Royal Copenhague (uma linda porcelana com design dinamarquês bastante tradicional entre os jovens) depois de ter achado uma amêndoa dentro da minha sobremesa, cujo nome me fugiu agora; da inspiração do “art of living” dinamarquês; do ensinar a pronúncia de certas palavras; das pessoas… Tudo Hyggeligt (palavra dinamarquesa que significa que algo é agradável, prazeroso)!

Esse reencontro, além de todas as sensações em mim despertadas e já mencionadas, me mostrou, mais uma vez, o poder da vontade de realizar algo. Acreditamos que nos veríamos novamente e fizemos acontecer.

Gratidão, Camino!

Centro de Aarhus

Centro de Aarhus

Comida tradicional dinamarquesa

Comida tradicional dinamarquesa

Aqui com a Tina - também peregrina- e o Rasmus

Aqui com a Tina – também peregrina- e o Rasmus :)

Para fazer um peregrino feliz…

Com o passar dos dias, fui descobrindo que eu realmente precisava de muito pouco para ficar feliz no Caminho a Santiago.

Carinha de feliz. :)

Carinha de feliz. :)

Eis algumas conclusões a que eu e outros peregrinos amigos chegamos sobre o que de fato nos trazia felicidade, objetivamente falando:

  • Ter roupa limpa e seca para vestir;
  • Chegar no banheiro do albergue e encontrar um chuveiro com forte propulsão de água QUENTE;
  • Encontrar no banheiro do albergue ganchos e cadeira ou banquinho para pendurar e apoiar as roupas e a nécessaire;
  • Em cada cama do albergue encontrar uma tomada e, até mesmo, uma luminária para facilitar o uso das tecnologias e a escrita no diário que todo peregrino, em geral, traz consigo;
  • Wifi com maior alcance possível, de preferência até o quarto.
No albergue em Pamplona

No albergue em Pamplona

Roupas secando no varal

Roupas secando no varal

Luminária e tomadas individuais

Luminária e tomadas individuais

Albergue em Sarria (a 100km de Santiago)

Albergue em Sarria (a 100km de Santiago)

O menu do peregrino

Devo dizer antes mesmo que alguém pergunte: eu não emagreci durante os 31 dias no Caminho de Santiago. Ao contrário, voltei com redondos 66 quilos, dois a mais de quando havia deixado o Brasil.

O ganho de peso, na minha opinião, se deveu ao inchaço ocasionado pela retenção de líquido, já que, infelizmente, não ingeri a quantidade de água que deveria, bem como pelo excesso de carboidrato. Nunca comi tanto açúcar na vida. Era o açúcar dos chocolates e gelatinas, do trigo dos “bocadillos”, das “tapas” e das “magdalenas”, da batata das “tortillas”, do arroz da Paella… Mas não reclamo. Foi a opção que fiz em aproveitar o Caminho sem me preocupar tanto com a dieta alimentar que há meses estava seguindo.

Bocadillo e cerveja ;)

Bocadillo e cerveja ;)

Torta de maçã <3

Torta de maçã <3

 Paella <3 (feita por um espanhol casado com uma brasileira)

Paella

 

Magdalena :p

Magdalena :p

Tortilla francesa (sem batata)

Tortilla francesa (sem batata)

Tapas

Tapas

Antes de mais nada um esclarecimento: o Caminho de Santiago é perfeitamente adaptável para todo e qualquer peregrino, vegetariano, com limitações de ingestão de glúten e lactose, etc. A pessoa só precisará ter um pouquinho de paciência e disposição para eventualmente preparar sua própria comida nas cozinhas dos albergues (a grande maioria deles dispõe para uso livre do peregrino) ou de quando for a um restaurante perguntar por eventuais adaptações dos ingredientes dos pratos.

Basicamente, a minha rotina alimentar era tomar café da manhã, comer algum lanche no almoço e a noite me fartar com o menu do peregrino.

O café da manhã oferecido na maioria das lanchonetes, bares ou restaurantes se resume a “tostadas” (ou torradas) com manteiga e geleia, acompanhadas de café com leite e um copo de suco de laranja.

Um dos meus cafés da manhã (que minha nutri não veja esse post rs)

Um dos meus cafés da manhã (que minha nutri não veja esse post rs)

O lanche a que eu fiz referência se alternava entre um “bocadillo” de queijo e tomates ou atum e uma tortilla (torta de batata e ovo), acompanhado de café com leite (se estivesse mais frio) ou de uma clara – cerveja com suco de limão – (se o sol estivesse a pino).

Bocadillo de atum e café com leite. (Deu água na boca)

Bocadillo de atum e café com leite. (Deu água na boca)

Por fim, o menu do peregrino para o jantar… O menu do peregrino é servido em quase todos os bares e restaurantes. Ele é composto de uma entrada, um prato principal e uma sobremesa, acompanhado de vinho a vontade.

Salve, Baco! \o/ (os cabelos bagunçados dão o charme rs)

Salve, Baco! \o/ (os cabelos bagunçados dão o charme rs)

A entrada em geral variava entre uma salada fria, uma sopa e uma pasta. O prato principal oferecia a opção de carne vermelha, frango ou peixe, com uma considerável porção de batata de acompanhamento. Por fim, a sobremesa compreendia uma porção de salada de fruta, uma fruta, um pote pequeno de iogurte, um flam, a torta de Santiago…

Entrada (geralmente, uma pasta ou salada fria)

Entrada (geralmente, uma pasta ou salada fria)

Principal: peixe ou frango

Principal: peixe ou frango

Flan

Flan

Tais opções ficavam à disposição do cliente que poderia escolher entre as opções aquelas que mais lhe agradava, pagando por tudo isso a quantia que variava entre 8 e 10 euros.

Alguns albergues por hábito também ofereciam o menu do peregrino de uma forma diferente. Por duas vezes, comi menu’s do peregrino vegetarianos, os quais não deixavam a desejar no sabor e fonte de nutrientes.

A entrada do menu vegetariano (e o carinho das cozinheiras desejando-nos um "Buen Camino")

A entrada do menu vegetariano (e o carinho das cozinheiras desejando-nos um “Buen Camino”)

Lasanha de abobrinha e outros vegetais

Lasanha de abobrinha e outros vegetais

A sobremesa: tora de nozes e castanhas

A sobremesa: torta de nozes e castanhas

Outros, por sua vez, ofereciam jantar em troca de donativos. Em uma dessas, no albergue do brasileiro Acácio em Viloria de Rioja, comi lentilha, fazendo-me matar a saudade, ainda que não por completo, do velho e bom feijão nosso de cada dia.

Ao contrário das previsões dos amigos que diziam que eu iria retornar mais magra e “acabada” rs, o Caminho revelou-se uma grande surpresa.

Saúde! ;D

Saúde! ;D

As bolhas

Lembro que a chegada em Estella foi das mais marcantes. Meus pés ardiam no trecho final deste dia, o quinto (de trinta e três) rumo a Santiago. Caminhava “de banda”, na ponta dos pés, valia de tudo para amenizar o ardor.

As primeiras bolhas vieram à tona com força total. Pequenas, médias, grandes. Juro que nunca dei tanto valor aos meus pés como nesse dia.

Chegando no albergue, uns senhores espanhóis, vendo a minha feição de choro, ofereceram ajuda. Seus apelidos eram Paco e Paco. Engraçado, não!? Caminhavam juntos aqueles amigos.

Foram eles que me orientaram a besuntar os pés de vasilina antes de calçar as meias, bem como me ofereceram os primeiros Compeed. Compeed é uma proteção em material plástico mais resistente que o band-aid e que forma mesmo uma segunda pele sobre aquela que já está desgastada. Tinha até tentado achar em farmácias no Brasil, mas não tive êxito.

Colocamos o Compeed no lugar da bolha recém-criada, porém sem antes estourá-la. O detalhe é que devíamos tê-la estourado antes de tudo e desinfecionado. Descobri isso apenas alguns dias mais a frente, quando os meus pés, àquela altura, já estavam encobertos de bolhas (e de Compeed), sem qualquer melhora.

As temidas encobertas por Compeed.

As temidas encobertas por Compeed.

Alguns dias com aqueles objetos plásticos encobrindo os pés me deixaram ainda mais impaciente. Em Azofra, num rompante de dor e desespero, resolvi tirá-los todos, depois de deixar os pés de molho em água quente por alguns minutos.

Não demorou muito e as bolhas do pé esquerdo passaram a drenar pus e este mesmo pé ficar inchado, a ponto de a havaiana não mais servir.

:/

:/

Com a ajuda da Jelena, que há tempo vinha acompanhando o meu sofrimento, fui convencida a parar por um dia, descansar e tratar das bolhas. Saímos juntas a procurar por um hotel, o único da cidade. Na sequência, ela seguiu viagem sozinha.

Repouso no hotel (meu day off “forçado”).

Repouso no hotel (meu day off “forçado”).

Localizei uma farmácia em Azofra e levei tudo de remédio que eu tinha trazido do Brasil, para que alguém, finalmente, me dissesse como eu deveria tratar daquelas bolhas. A farmacêutica me orientou dizendo que eu deveria desinfecciona-las com mertiolate e, em seguida, furá-las com uma agulha para que a água do seu interior saísse, e, por fim, reaplicar o mertiolate. Naquelas bolhas que já estavam infeccionadas, ela me recomendou aplicar pomada antibacteriana e, depois de tudo, cobrir com uma “gaze” adesiva para pele sensível, e só então passar vaselina na parte restante do pé para depois calçar as meias. Ufa!

Um dia de descanso com os pés tratados e em repouso me fizeram bem a ponto de no dia seguinte o recomeço da caminhada ter sido incrivelmente mágico. As bolhas ainda estavam presentes, outras tantas ainda apareceriam, mas o ânimo já era outro. Passei a conviver muito melhor com elas e superar a cada dia mais os meus limites físicos e mentais.

O recomeço

O recomeço

“O mundo é um ovo”

Essa expressão é muito usada na minha Teresina, cidade do coração, quando se quer afirmar que determinado lugar é pequeno, onde todas as pessoas se conhecem.

Alguém poderia pensar que ousadia a minha afirmar que “o mundo é um ovo”. Tudo bem! Aqui trata-se mesmo de um reforço de linguagem. Então deveria eu corrigir para dizer que “O caminho é um ovo”. 😉 Explico.

Estou eu descendo o Monte do Perdão quando avisto uma família composta pelo pai e dois filhos (um homem e uma mulher). Nos aproximamos e eu, que estava com a bandana do Brasil, fui por eles interpelada, dizendo que também eram brasileiros. Nos apresentamos dizendo nossos nomes, de que parte do Brasil éramos e nossas profissões.

No alto do Monte do Perdão

No alto do Monte do Perdão

Para a minha surpresa, o rapaz, chamado Daniel, disse que era médico e morava em Ribeirão Preto. Sem demora, afirmei a ele que minha irmã morava também naquela cidade, porque fazia residência em pediatria. Então ele disse que também era médico, ortopedista pediátrico, inclusive dando aula para médicos residentes. Ops! Começamos a ligar os pontos.

Para a surpresa de todos, ao final desse primeiro contato, descobrimos que o Daniel havia sido professor da minha irmã dois meses antes. Começamos a gargalhar pela coincidência de em meio àquelas circunstâncias nada comuns, em pleno solo espanhol, encontrarmos uma conexão que nos aproximou.

“O Caminho é ou não é um ovo?” 😉

As amizades no Caminho

“O Caminho é feito por pessoas”. Escrevi isso em algum dos primeiros posts nas redes sociais. Diria eu que talvez o Caminho não impactasse tão fortemente as expectativas de autoconhecimento e amadurecimento reveladas durante o seu percurso não fossem os peregrinos.

É uma troca inexplicável!

Pessoas vêm e vão. Algumas ficam mais tempo. Todas com uma história a compartilhar, seja na mesa de um restaurante ou nos quilômetros que separam uma cidade da outra. Não importa.

Daí porque eu afirmar com uma grande convicção que só fica sozinho no Caminho quem assim deseja. Eu mesma, apesar de ter ido sozinha, só permaneci sozinha em longos trechos, porque assim desejei. Queria aproveitar cada minuto para ouvir a voz dos meus pensamentos, para meditar ao som dos pássaros, da cachoeira, ou até mesmo, da playlist do celular. Tinha mais dificuldade em me encontrar comigo mesma com uma companhia do lado, pois sentia uma certa “obrigação” de falar.

Apesar disso, tive muitas oportunidades de encontrar pessoas, de diferentes idades, de diversas nacionalidades. Fiz amigos, pessoas com quem pude abrir o coração. Isso, inclusive, no Caminho, não parece uma tarefa muito difícil, pois de uma forma ou de outra, o simples fato de sermos todos peregrinos já nos identifica e sinaliza um pouco da característica pessoal de cada um. Ser peregrino no Caminho de Santiago tem lá suas particularidades. Não é para qualquer um – lembro não raras vezes ter ouvido de pessoas no Brasil: “você está doida. Por que vai fazer um negócio desses? Melhor seria ir para outro lugar, aproveitar a praia sentada na barraca bebendo um cerveja gelada…”

O fato é que, apesar dos difíceis momentos que certamente todos enfrentamos no Caminho, outros tantos incontáveis de alegria nos são oportunizados, geralmente, no contato com o outro. Vou citar alguns exemplos.

Criei um vínculo especial com a Jelena (da Croácia), que já comentei aqui no blog. Tivemos uma forte empatia desde o princípio. No entanto, não caminhamos juntas todo o tempo. Geralmente, nos dispersávamos e nos albergues das cidades de destinos nos reencontrávamos. Em uma dessas ocasiões, em Pamplona, ao nos revermos tivemos uma reação tão explícita de carinho e saudade que eu deduzi que aquela mulher se tornaria uma grande amiga, em quem eu poderia confiar. Ela seria minha “anjo da guarda”. <3

Jelena <3

Jelena <3

Outros queridos e com quem tive o prazer de conviver de mais próximo, foram a Andrea e o Renato, ambos brasileiros. Foi com eles que eu aprendi que ir além dos seus limites físicos é sempre possível, se ao seu lado tiver pessoas que te impulsione a isso. Caminhamos os três juntos em um só dia memoráveis 41 (quarenta e um!) quilômetros. <3

Andrea :D

Andrea :D

Ouvi lindas histórias da Chris, dos EUA, que me inspiraram a ser uma pessoa melhor. Foi com ela que dormi e comi em um albergue de proposta natural, vegetariana, isso depois de nos perdermos e caminharmos 6 (seis) quilômetros a mais, dos 30 e tantos que já tínhamos feito. Estávamos na companhia uma da outra. <3

Chris e Renato :D

Chris e Renato :D

Marcante foi ainda a Helle, da Dinamarca, com sua alegria de viver. Helle me ensinou que por vezes precisamos ser flexíveis a fim de alcançar determinados objetivos. Sua marca é a jovialidade. Quando tiver a sua idade, quero ser como você, Helle!

Helle (a de lenço verde) :

Helle (a de lenço verde) :

Puxa! Eu poderia escrever páginas sobre os amigos do Caminho. Foram tantos e tão especiais. Guardo todos nas minhas melhores lembranças e nas anotações do seu Moleskine de capa amarela. <3

Vinte e sete com joelhos de oitenta

Foi essa a conclusão que cheguei no final do segundo dia de caminhada. Sinceramente, achei que esse dia seria tranquilo comparado ao dia anterior. Ledo engano.

O percurso de Roncesvalles a Zubiri revelou-se úmido, lamacento e com muita variação de relevo. Lembro que uma fina garoa dava o tom das minhas passadas. Estava mais atenta e cautelosa para não deslizar e cair em meio às grandes pedras.

A tradicional foto em Roncesvalles.

A tradicional foto em Roncesvalles.

Apesar do aparente cenário desanimador, as tulipas que adornavam as casinhas do século XVIII em Burguete encheram os meus olhos. Pela primeira vez, via tulipas plantadas no solo, como as familiares roseiras dos jardins brasileiros. Elas eram pequenas, grandes, de todas as cores. Me impressionou como a aparente fragilidade de suas pétalas poderiam bem conviver com o aquele solo e aquele clima. Elas resistiam como que de propósito para serem apreciadas pelos peregrinos que lá passavam.

Lindas tulipas.

Lindas tulipas.

Das pequenas tulipas às altíssimas árvores parecia que o contato com a natureza bela promovia o cenário perfeito para a divagação dos pensamentos. Havia momentos que eu só queria que eles se acalmassem. De uma forma ou de outra, meus desejos foram atendidos.

O percurso até chegar em Zubiri era só de descida. Os joelhos que já não estavam essas maravilhas, mostraram a que vieram ou para o que não estavam dispostos, vamos assim dizer. Diminuí o ritmo. Sabe quando você caminha como que escolhendo aonde pisar? Pois bem. Eu fiz isso por quase uma hora.

Os peregrinos que eu tinha ultrapassado, em algum momento, começaram a me alcançar, um por um. Mas não só eles. Também as próprias famílias espanholas que aproveitavam o lazer dominical para praticar atividades ao ar livre.

Foram adultos, crianças e idosos, todos eles a caminhar como se nada estivesse fora do controle, enquanto para mim, tudo, absolutamente tudo, fugia do controle.

O cúmulo foi quando uma senhora com seus 65 ou 70 anos me ultrapassou. Quando vi a cena e realizei que de nada adianta ter 27 anos, se os seus joelhos não respondem, gargalhei por dentro, enquanto as lágrimas queriam extravasar.

Não demorou muito e foi isso mesmo que aconteceu. A cada passada que tentava encontrar firmeza, caia uma lágrima. E assim foi até que um peregrino suíço, cujo nome eu não gravei, parou e perguntou se eu estava bem. A princípio, respondi que sim. Mas é claro que não estava e então ele insistiu na pergunta. Resolvi colocar o sentimento de autossuficiência no bolso e revelei que não estava nada bem, pois meus joelhos doíam muito.

Sem demora, ele sacou do bolso um remédio para dor, desses que dissolvem na boca sem necessidade de água, e ofereceu um dos seus sticks em complemento ao meu, bem como me acompanhou até a chegada a Zubiri.

Marcos do Caminho

Marcos do Caminho

Os atos de solidariedade e gentileza pelo Caminho começaram a dar as caras, para assim continuar até o final da jornada, tornando-se uma das lembranças mais marcantes desta que escreve.

Chá e pomada que ganhei de peregrinos no albergue em Zubiri.

Chá e pomada que ganhei de peregrinos no albergue em Zubiri.

Escalando os Pirineus

Atravessar a fronteira entre França e Espanha não foi das mais fáceis e tranquilas experiências da minha vida. Ao contrário. Sofri com o frio, a chuva e a neve. Senti-me indefesa em meio àquela natureza feroz. Pela primeira vez me questionei o que lá estava fazendo…

Mas antes de chegar a esse ponto, algumas considerações. Ainda no albergue em SJPP, o carioca/gaúcho Fernando ao colocar os olhos na minha mochila, bradou sem pestanejar: “Carol, sua mochila está muito pesada. Melhor esvaziá-la ou não conseguirá subir os Pirineus”. O primeiro susto… Parecia que minha experiência de desapego começaria antes mesmo de eu começar a caminhar. E assim foi.

Mochila na saída do Brasil

Mochila na saída do Brasil

Voltei ao meu quarto e analisei o que tiraria da mochila…sem muito tempo para refletir, tirei o saco de castanhas de caju, as barras de proteína e sachês de carboidratos, um perfume em embalagem plástica, minha Bíblia – que havia ganhado da tia Jô no meu aniversário de 15 anos (!)… Ela era daquelas de folhas finas que quando compactadas fica bem pesadinha. Na verdade, tinha a consciência de que não era minha Bíblia que me ajudaria a realizar o Caminho de Santiago, mas muito mais a minha conexão com Ele. Desapeguei! Distribuí os alimentos com os outros peregrinos e deixei minha Bíblia na sessão de livros do albergue.

Em SJPP, em frente ao Hostel Beilari

Em SJPP, em frente ao Hostel Beilari

Ainda no Beilari, ouvi alguns peregrinos discutindo se fariam a Rota de Napoleão (mais comum) ou a de Valcarlos (pouco percorrida) para chegar a Roncesvalles; se dormiriam no Orisson ou seguiriam até Roncesvalles no mesmo dia. Sabe quando você faz uma cara de interrogação? Tenho certeza que foi essa a minha reação ao ouvir aquela conversa. Eu não sabia de nada daquilo…Bem, pelo menos não estava tão gravado na minha mente tantos detalhes…rs.

Orisson é um pequeno local com albergue e restaurante que fica na subida para os Pirineus. Muitos peregrinos optam por lá parar e no dia seguinte subir os Pirineus. Quando me perguntaram até onde eu iria, dizia, sem pestanejar, até Roncesvalles. rs. Coisa de principiante que não leu muitos guias do Caminho, pensava comigo mesma, e que não tinha alternativa àquela altura. No final, até que agradeci por não ter sabido desta opção a tempo de escalar os Pirineus em um só dia, pois pude testar meus limites e ver o quão forte posso ser quanto instada a isso.

O fato é que o Orisson acabou me marcando. Antes de chegar ao único albergue/restaurante do local, encontrei a Jelena, da Croácia, que se tornaria meu anjo da guarda no Caminho <3, assim como reencontrei o Renato, do Brasil, que seria um grande apoio e em que daria o abraço ao chegar em Santiago, e a Finja, da Alemanha, com quem havia estado no albergue no dia anterior.

Na foto: eu, Renato, Finja (de preto) e Jelena (de casaco rosa).

Na foto: eu, Renato, Finja (de preto) e Jelena (de casaco rosa).

Sabe aquela empolgação inicial que te faz realizar o inimaginável!? É assim que eu caracterizo o meu primeiro dia no Caminho. Escrevendo do conforto da minha casa, hoje, eu penso e repenso como eu fui capaz daquilo, especialmente considerando minha parca preparação…

A etapa de SJPP a Roncesvalles, para a quase unanimidade dos peregrinos, é a mais difícil de todas. São 27,1 km, dos quais 22 km são de pura subida. Se caminha de 200m de altitude em SJPP até 1430m de altitude em Col Lepoeder, para depois descer até 950m de altitude, em Roncesvalles.

O que me movia? A fé e a vontade de realizar.

O que me movia? A fé e a vontade de realizar.

Recordo que no pico chovia, nevava, a visibilidade era bem ruim. A companhia da Jelena foi salutar, pois pudemos conversar e desviar um pouco a tensão daquele momento.

Jelena e eu atravessando os Pirineus.

Jelena e eu atravessando os Pirineus.

Já na descida do trecho, meus joelhos me fizeram lembrar da condromalácia patelar hereditária, que no passado havia sido tratada. Tome choro! Chorava de dor e de emoção por avistar o dia ser tomado por um lindo azul que contrastava com o verde e o marrom das árvores e folhas. Lembrei daquelas pessoas que são mais caras ao meu coração.

Em Roncesvalles, hospedei-me num grande e novo albergue local. A infraestrutura impressionava. Dormi em uma cabine individual, com mais de duas tomadas só para mim. Rs. Aquele seria um dos melhores albergues de todo o Caminho.

Detalhes do albergue em Roncesvalles.

Detalhes do albergue em Roncesvalles.

Ainda tentando “pegar as manhas” de peregrina, observei o quanto precisaria ser prática e objetiva ao ir aos banheiros coletivos, ao deixar minhas coisas sempre que possível organizadas e na tomada de banho. Em geral, os peregrinos somente tomam um banho por dia, que é quando chegam à cidade de destino. A minha conclusão é que isso se deve ao fato de que os pés precisam estar bem secos pela manhã, a fim de que sejam preparados para enfrentar o dia de caminhada. Eventual umidade combinada com o atrito do pé, com a meia e a bota podem gerar bolhas. Fora isso, o fato de que em geral os dias amanhecem gelados.

O fato é que eu segui o fluxo… Sou capaz de dizer que tomei 31 banhos durante os 31 dias no Caminho de Santiago (!) rs. A propósito, esse foi o segundo exercício de desapego que o percurso me impôs. Os hábitos tupiniquins ficaram para quando eu retornei ao Brasil… =p

A Jornada até Saint Jean Pied de Port (SJPP)

Não foi fácil chegar a Saint Jean, de onde comecei efetivamente o meu Caminho. Digo, efetivamente, pois há quem diga que se começa a caminhar a Santiago de Compostela quando se decide por fazê-lo. Coisas do Caminho de Santiago… 

O selo da credencial do peregrino em SJPP

O selo da credencial do peregrino em SJPP

Eu sabia que tinha duas opções para chegar a SJPP: chegando de avião por Madri ou por Paris. Me decidi a ir por Madri, pois a logística, de alguma forma, me pareceu melhor, especialmente depois de assistir uma palestra online sobre o Caminho.

O meu trajeto foi o seguinte (cuidado para não cansar! Haha!): Voei de Brasília até o Rio de Janeiro; depois do Rio a Paris e, finalmente, de Paris a Madri. Em Madri, peguei um trem a Pamplona e, na sequência, uma van/táxi até Saint Jean Pied de Port. Saí de Brasília às 11h da manhã do dia 21 de abril e cheguei a SJPP, às 20h, do dia 22 de abril. Ufa!

No aeroporto de Paris

No aeroporto de Paris

Fui eu mesma quem comprei, reservei e preparei todo esse passo-a-passo pela internet. Não havia muito tempo até a data da viagem, então, tratei de comprar e reservar tudo em dois ou três dias.

Voei de Brasília a Madri de Airfrance, pois os horários oferecidos eram os melhores para mim. Chegando em Madri peguei um ônibus, que sai mesmo do aeroporto, até a estação de trem ATOCHA. (Achei o ônibus mais prático, pois não tinha muito tempo para entender a logística do metrô madrileno. Eram mais ou menos 3 horas até a partida do trem para Pamplona).

Comprei o bilhete de trem ainda no Brasil pela raileurope, pelo próprio site da companhia em português. Considerei a hora que chegaria em Madri e escolhi o horário que partiria a Pamplona, dando uma margem de segurança para eventual atraso.

Campo de canola visto de dentro do trem

Campo de canola visto de dentro do trem

Cheguei cedo na estação ainda a tempo de conversar com uma espanhola, de nome Lúcia, que se aproximara para compartilhar a tomada que eu estava usando e confirmar a plataforma do trem que deveria pegar. Conversa vai, conversa vem, contei a ela que estava a caminho de SJPP para iniciar o Caminho de Santiago no dia seguinte e ela, gentilmente, me deu o número de celular para o caso de precisar de alguma ajuda. Disse ainda que pegaria esse mesmo trem e que eu podia acompanha-la para evitar qualquer imprevisto.

Cheguei em Pamplona no horário devidamente anunciado, 18h e uma fração. Na estação de trem em Pamplona, já me aguardava o Pedro, motorista de táxi, com quem eu havia mantido contato, através do número de contato oferecido pela Associação dos Amigos do Caminho de Santiago do Brasil, a qual tive o cuidado de me associar previamente.

Estação de trem de Pamplona

Estação de trem de Pamplona

O Pedro me levou até SJPP e durante o percurso de mais ou menos 2 horas, pudemos conversar um pouco. Eu questionava a ele onde estavam os peregrinos, pois não visualizava nenhum pela janela da van. Ele, calmamente, respondia que àquela hora quase todos já estavam a repousar depois do cansativo dia. Também perguntei pelos Pirineus (cordilheira cujos montes formam a fronteira natural entre a França e a Espanha), o qual, enigmaticamente dizia que eu veria no dia seguinte…

Cheguei a SJPP, por volta das 20h, direto para o albergue Beilari (www.beilari.info), que o mesmo Pedro tinha me ajudado a reservar. Eu não tinha feito qualquer reserva de albergue. No local, fui muito bem recebida por todos os que lá estavam. Já era hora do jantar (sopa de entrada, tortilha de prato principal e torta de limão como sobremesa)! Mal sabia eu que com aquelas pessoas manteria uma intensa ligação durante os mais de 30 dias de caminhada. Mais uma vez, comprovo “que nada, nem ninguém é por acaso”.

No hostel Beilari na chegada a SJPP

No hostel Beilari na chegada a SJPP